Quando pensamos em Xangô, quase imediatamente pensamos em justiça. Mas a justiça de Xangô pode nos ensinar algo muito maior do que esperar que aquilo que consideramos justo aconteça conosco. Ela nos convida a olhar para a própria vida e perguntar: o que precisa ser colocado em equilíbrio dentro de mim?

Talvez seja por isso que a força de Xangô seja tão necessária nos dias atuais. Vivemos cercados de pressa, conflitos, julgamentos, cobranças e opiniões. Muitas vezes reagimos antes de pensar, falamos antes de compreender e julgamos antes de conhecer toda a história. Xangô nos chama para o centro. Para o lugar onde a emoção encontra a razão e onde nossas decisões deixam de ser apenas respostas ao momento e passam a ser escolhas conscientes.

A pedreira de Xangô nos ensina sobre firmeza. A pedra suporta o vento, a chuva e o passar do tempo sem perder sua essência. Também enfrentaremos tempestades durante nossa caminhada, mas não precisamos permitir que cada dificuldade determine quem somos. Xangô pode nos inspirar a criar essa firmeza interior: aprender a dizer não quando necessário, estabelecer limites, defender aquilo em que acreditamos e permanecer de pé quando a vida nos desafia. Mas existe uma diferença importante entre ser firme e ser duro. Firmeza sustenta; dureza machuca. A força de Xangô não precisa nos transformar em pedra diante da dor dos outros, mas em base segura para atravessarmos nossas próprias dificuldades e, quando possível, ajudarmos alguém a atravessar as suas.

Seu oxê, o machado de duas lâminas, também traz um ensinamento precioso para nossa vida. Antes de decidir quem está certo ou errado, precisamos aprender a enxergar os dois lados. Quantos relacionamentos seriam preservados se ouvíssemos antes de responder? Quantos conflitos seriam menores se tentássemos compreender antes de condenar? Quantos arrependimentos evitaríamos se esperássemos a raiva passar antes de tomar uma decisão? Xangô nos ensina que justiça sem sabedoria pode facilmente se transformar em julgamento. Por isso, sua força nos convida ao discernimento: nem tudo precisa de uma resposta imediata, nem toda provocação merece nossa energia e nem toda batalha precisa ser vencida.

E existe outra grande lição de Xangô: responsabilidade. É muito fácil pedir justiça quando somos feridos; mais difícil é reconhecer quando fomos nós que ferimos alguém. É fácil perceber a falha do outro; mais difícil é olhar para nossos próprios erros. Incorporar as qualidades de Xangô à nossa vida significa também desenvolver coragem para dizer: “Eu errei.” “Eu poderia ter agido diferente.” “Preciso reparar aquilo que fiz.” Assumir responsabilidade não nos diminui. Ao contrário, demonstra que estamos amadurecendo. Não podemos controlar tudo aquilo que acontece conosco, mas podemos aprender a escolher como responderemos ao que acontece.

Neste mês de Xangô, talvez possamos pedir menos que ele resolva nossas batalhas e pedir mais que nos dê sabedoria para escolher quais batalhas realmente precisamos enfrentar. Que nos dê equilíbrio para não decidir pela raiva, firmeza para não abandonar nossos princípios, coragem para estabelecer limites, humildade para reconhecer nossos erros e discernimento para perceber quando devemos falar e quando o silêncio é a resposta mais sábia.

Que Xangô nos ensine a colocar sua balança dentro de nós. Que possamos equilibrar razão e emoção, firmeza e compreensão, autoridade e humildade, coragem e prudência, justiça e misericórdia. E que, diante das pedras que encontrarmos pelo caminho, não perguntemos apenas “Por que isso aconteceu comigo?”, mas também: “O que esta pedra pode me ensinar e quem eu escolherei ser depois de atravessá-la?”

Porque talvez a maior ajuda que Xangô possa nos oferecer não seja retirar todas as pedras do nosso caminho, mas nos ensinar a construir, com elas, a pedreira firme sobre a qual sustentaremos nossa própria transformação.

Kaô Kabecilê, meu Pai Xangô! ????
Que nunca nos falte justiça para agir, equilíbrio para decidir, firmeza para continuar e sabedoria para compreender.

Tenda de Umbanda Caboclo Tupinambá e Vó Catarina
Onde a caridade é o nosso maior fundamento.

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